Dançando com Ibrahim Ferrer

Cubano faz platéia do Canecão delirar

João Bernardo Caldeira

Por onde passa, a música cubana continua a cativar fãs. Anteontem, em sua primeira e única apresentação na cidade após quatro anos, o cantor Ibrahim Ferrer levou ao delírio um Canecão lotado. O show faz parte da turnê do seu último CD, Buenos hermanos, mas serviu também como celebração da trajetória de Ibrahim, que saiu do ostracismo após o lançamento do filme e do disco Buena Vista Social Club, em 1997.

Até esta data, o cantor vinha ganhando a vida engraxando sapatos e vendendo bilhetes de loteria, sem o devido reconhecimento. Mas o passado torna-se distante quando Ibrahim adentra o palco, a voz perfeitamente afiada e a silhueta delgada, à frente de uma suntuosa banda de 16 músicos elegantemente trajados de terno escuro. A banda é dominada pelos metais e traz também percussão, bateria, piano, backing vocals, contrabaixo e guitarra.

Depois da abertura, a cargo dos músicos, Ibrahim entra em cena e é calorosamente ovacionado de pé pelo público. Ele canta Bruca manigua, faixa inicial do primeiro disco solo, Buena Vista Social Club Presents Ibrahim Ferrer, lançado depois do filme que devolveu ao mundo o vigor dos músicos veteranos de Cuba. A maioria dos presentes conhece e acompanha Bruca manigua, como também Candela, Dos gardenias e Perfume de gardenias.

Se os gestos lentos do cantor de 77 anos revelam que o sucesso veio tarde, mostram também que ele parece não ter pressa de saboreá-lo. Ciente das chances de estar diante do último show de Ibrahim no Rio, o público é paciente. Os solos de cada músico, virtuoses a serviço da canção, são aplaudidos como num show de jazz, só que regado a rumba, son cubano e bolero.

O pianista Rubén González, morto no ano passado e integrante do time Social Club, foi lembrado e homenageado, gesto que ganhou a aprovação da platéia. Já o cantor e violonista Compay Segundo, do mesmo time e também falecido em 2003, curiosamente não foi citado.

Ibrahim Ferrer agüentou firme as duas horas de show, uma marca nada desprezível. No final, muitos se levantaram para dançar no corredor da casa, num misto de descontração e euforia. Uma fã mais atirada subiu no palco para rebolar bem na frente do cantor, mas logo foi gentilmente retirada por um segurança. A famosa e ingênua alegria de viver dos cubanos encontrou plena correspondência na festiva informalidade brasileira.

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