| Encontro das Culturas - Havana - Outubro 2002 | ||
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publicado no jornal oPasquim21 - out/nov 2002 Fui a Cuba e não vi Fidel. Afora isto, fiz tudo o que os turistas fazem: tomei morrito e cubra libre, andei de coco, comi poyo com papas fritas, visitei o Museu da Revolução, a Havana Velha e o Malecon, mergulhei nas águas mornas meio baianas de Santa Maria e de Varadero e comprei camisas com foto e boina com a estrela do Che. Bebi, almocei e fui fotografado na Bodeguita Del Médio e na Catedral de Havana. E ainda me diverti pra cacete com o grupo de malucos do qual fiz parte nessa empreitada. Em uma semana em Havana e imediações, pude entender melhor o que escreveram ou cantaram apaixonados por Cuba como Hélio Dutra, Fernando Moraes e Chico Buarque, entre outros: a ilha é mesmo do balacobaco e seu povo é feliz, apesar de viver na corda bamba, entre as salsas e os bloqueios. Capitaneada pelo site Guantanamera (leia-se Zezé Sack) e pelo projeto cultura Casa do Brasil em Cuba (leia-se Nelson Rodrigues, filho), a viagem durou uma semana e rendeu histórias que um texto de jornal não comporta. Para começar, embarcamos no Rio de Janeiro, com destino a São Paulo, manhãzinha de sábado dia 12. Lá, embarcaríamos em vôo da Cubana de Aviação com destino a Havana. Embarcamos e lá chegamos, só que antes paramos no Rio para que o avião fizesse uma tal "compensação de combustível", que tentei, mas não descobri do que se tratava. Só embarcamos novamente no Rio, de onde saímos às sete da manhã, às quatro da tarde. A viagem prometia. Reunido em volta do amigo Sylvinho e de suas garrafas, no rabo da aeronave, o grupo de malucos (que contava ainda com Irany, Teresinha, Jack e Leila) derrubou três litros de bucanas e um de rum comprados a bordo. Lá pras tantas, enquanto a turbulência e o álcool faziam a terra girar de matar de inveja o Galileu, Nelsinho Rodrigues dava aulas mirabolantes de Brasil a um colombiano que se aproximou para filar a bebida, na língua que ele pensava ser um portunhol repleto de imaginação. Até o colombiano soar o alarme: Mas se você é brasileiro, por que está falando em italiano?! Vá bene. Vôo e vida que seguem. Chegamos bem, graças ao bom e velho engov. O primeiro programa foi visitar a lindíssima praia de Varadero, onde tivemos que segurar os companheiros para evitar que bebessem toda a água local, incluindo os mares oceânicos e do Caribe. Mas fiquem sabendo que não ficamos só na gandaia. Pessoalmente, tive um ótimo encontro na União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba, onde fui recebido com muito carinho pelos organizadores da Casa, a escritora Estrella Morejón e o simpaticíssimo ator Alden Knight um negro de sorriso farto e contagiante firmeza revolucionária. Juntamente com Nelsinho Rodrigues e Zezé Sack, também visitei o Instituto Nacional de Jornalistas de Cubas, onde trocamos experiências e histórias com o diretor-geral Guillermo Cabrera e com uma linda e inesquecível muchacha, com sorriso de rumbeira e olhos de jabuticaba. Infelizmente, não posso citar aqui o seu nome da bela companheira periodista, pois Nelsinho seqüestrou o seu cartão de visita, enciumado porque ela olhou muito mais para mim do que para ele. Va bene. Zezé e Nelson visitaram ainda outras instituições ligadas ao cinema, ao teatro e à literatura. Duas autoridades cubanas nos receberam com muito carinho, no Ministério da Cultura: a encarregada de relações internacionais, Ana Maria Pellón, e vice-ministro Rafael Bernal que chega ao Brasil esta semana para tratar de diversos acordos e convênios com instituições ligadas à cultura em São Paulo e no Rio de Janeiro. Como diria o Nelsinho, em seu ítaloportunhol: tutty buona gente. Pontos altos: visita à Escuela Amistad Brasil-Cuba (onde vi professores orgulhosos por estarem ajudando a formar indivíduos livres, e meninos e meninas desenhando o futuro, alimentados, limpos, com saúde, sapatos engraxados e dentes bonitos) e a entrevista que fizemos, Zezé e eu (veja Box), com Compay Segundo, estrela do filme Buena Vista e um dos músicos mais queridos e admirados na ilha. Duas presenças marcantes: o gaúcho Pedro Etchebarne, secretário-geral da Embaixada do Brasil em Cuba, que nos recepcionou com atenção e carinho, e a dançarina Noemi Crosas García, que abriu sua casa com entrega de irmã. Pedro, que sabe tudo de jornalismo, humor e literatura brasileiros, nos recebeu para jantar, com direito a rum, charutos e vídeo sobre música cubana. Por falar em música, Noemi é mãe do excelente músico Rodolfo Athayde, filho também do saudoso jornalista e escritor Félix de Athayde, por demais conhecido dos brasileiros.
publicado no jornal oPasquim21 - out/nov 2002
"Tenho 95 anos de idade e há 90 não dispenso um puro charuto cubano" Compay é unanimidade na ilha: músico insuperável, de charme e longevidade insuperáveis. Não dispensa um charuto nem uma namorada. Sempre um puro cubano entre os dedos e uma mulher jovem e bonita por perto, esbanja simpatia. Nos recebeu no elegante Hotel Nacional (que inveja dos exilados brasileiros que ficaram "escondidos" lá!), um dos cartões postais de Havana. Fumou, tomou café, sorriu muito e encheu minha bola quando soube que fazemos aniversários no mesmo dia: "Os homens de 18 de novembro são inteligentes, amantes das crianças e das mulheres". Oba. Grande Compay! - Gosto muito do Brasil e dos brasileiros. O Brasil se parece com Cuba. Pena que o nosso território seja tão pequeno. Se fosse tão grande quanto o de vocês, também seríamos uma potência. Acha que somos uma potência? - Sem dúvida. Nós, aqui, temos muitas dificuldades. Por exemplo? - Pouca terra para que o camponês. Mas temos cultura e educação. E saúde. - Sim! Mandamos médicos para todos os lugares. Nossa medicina e revolucionária. Por falar nisto, o que o senhor fazia em 1959, quando da vitória dos revolucionários? - Trabalhava na fábrica de charutos Monte Cristo, em Havana. Quando Fidel entrou na cidade, todos nós saímos para recebê-lo, em festa. Vem deste trabalho o seu gosto pelos puros? - Vem de antes. Fumo charutos há 90 anos. Minha avó fumava e viveu 116 anos. Como está hoje, aqui, a situação profissional para os artistas cubanos? - Melhor do que antes. Têm mais oportunidade de trabalho. Há muito turismo, então tem sempre um lugar para o artista cubano mostrar o seu trabalho. O senhor tem trabalhado muito? - Sim. Me apresento regularmente aqui no Hotel Nacional, viajo para shows fora e tenho contrato de exclusividade com uma grande gravadora espanhola, que distribui meus discos por todo o mundo. O que significou, para sua vida e a vida de sua família, o senhor ter ganho o Prêmio Grammy? - Foi importante. Fui até os Estados Unidos, para receber. Foi muito importante. Esse prêmio é só medalha e reconhecimento, ou tem dinheiro também? - Só a nominação e o reconhecimento. O senhor é um músico reconhecido internacionalmente, sua e mais uns poucos artistas cubanos, é atípica. Mas para os artistas talentosos, mas menos conhecidos? - Tenho filhos e netos que também são músicos aqui, todos trabalhando. Os jovens também encontram onde trabalhar aqui. Aqui, temos muitos músicos, alguns muito bons. E músicos antigos, tradicionais, que preservam a trova, são muitos? - Muitos. Somos o país dos grandes trovadores. Artistas do bolero, do merengue. O sucesso internacional do filme Buena Vista significou o quê para vocês, cantores e instrumentistas, os artistas da fita? - Foi importante para todos nós. Hoje estão todos juntos ou afastados, cada um cuidando de sua vida? - Cada um pro seu lado, cuidando de suas vidas. Mas somos todos grandes e queridos amigos, muitos são conterrâneos meus, de Santiago. Acha que ainda podem se juntar, em nova temporada? - Acho muito difícil. O que era o Buena Vista? - O clube de shows e danças, muito popular aqui em Havana. Buena Vista Social Clube, que não existe mais. Ficou o nome. Hoje é nome de um bairro em Havana. O filme é uma homenagem ao clube e aos artistas. Quando pensa em visitar novamente o Brasil? - Na hora em que me chamarem. Adoro o Brasil. Gostei de cantar no Canecão. Continuas muito namorador? - Sempre. No momento, estás enamorado? - Estou solteiro, mas disponível. Acabei um namoro há pouco tempo, pois acabou o prazo, venceu a validade. Em que ano o senhor nasceu? - 1907, em Santiago de Cuba. Meu pai era maquinista durante a segunda guerra mundial. Acabou a guerra, meu pai ficou sem trabalho. Tinha oito irmãos, sou o terceiro deles. Algum outro também artista? - Todos. Até as mulheres. Em que ano veio para Havana? - Em 1934. Eu tocava clarinete na Banda Municipal de Santiago de Cuba. Quando deixei Santiago, minha mãe me deu um beijo e me disse: Siga em frente. A sorte está no pé. Quantos filhos e netos? - Filhos, cinco. Netos e bisnetos, perdi a conta. O que vai acontecer em sua festa de 95 anos, dia 18 de novembro? - Uma grande festa em Cuba, podem ter certeza. O senhor é um homem feliz? - Syyyyyyyyy.... como no? Ouça
o trecho da entrevista em que Compay fala
publicado no jornal oPasquim21 - out/nov 2002
Rafael Bernal é vice-ministro da Cultura de Cuba, mas tem status de ministro. Ele é quem representa o Ministério da Cultura no exterior, fazendo acordos e convênios. Há poucos dias esteve entre nós, tratando mais uma vez de divulgar a ilha de Fidel e suas realizações no campo cultural, que não têm sido poucas. Veio aqui exatamente para encontros com autoridades das áreas cultural, educacional e acadêmica do Rio e de São Paulo, montando parcerias e fazendo convites oficiais para o III Congresso Internacional Cultura e Desenvolvimento, que acontece em Havana no próximo ano, entre os dias 9 e 12 de junho. Entre um despacho e outro, o supergentil vice-ministro recebeu a mim, ao Nelsinho Rodrigues e à Zezé Sack, para esta entrevista. (Luís Pimentel) Rafael, a que devemos a honra dessa visita? - O motivo principal é divulgar e promover aqui, junto às autoridades da cultura, os intelectuais e os artistas brasileiros, a terceira edição do Congresso Internacional Cultura e Desenvolvimento, que estaremos promovendo em Havana, em junho de 2003. Qual o objetivo desse congresso? - O objetivo principal é estabelecer um espaço de reflexão, de análises e discussões da problemática da cultura, hoje, em todo o mundo. Sobretudo, discutir o impacto da globalização na cultura. Sabemos muito bem que a "cultura" geral que se impõe é uma coisa impregnada de banalidade e de superficialidade. Uma agressão aberta à identidade cultural do nosso povo. O que se difunde, divulga e propaga como cultura global não passa de uma coisa que pretende achatar as culturas populares. É uma coisa massificada, que penetra todos os dias em nossa casa, sem pedir permissão, e que vai nos emburrecendo e nos transformando em espectadores deslumbrados de espetáculos ditos culturais, tipo como Michael Jackson, tipo Rick Martin. Não é que essas coisas não devam existir, mas precisamos manter um olhar bem crítico com relação a esse tipo de espetáculo. Essas coisas tentam relegar a um segundo plano, tentando fazer com que desapareçam, nossas manifestações artísticas mais populares, nossas raízes mais legítimas e mais profundas. O congresso estará discutindo tudo isto? - De preferência. Em um mundo globalizado de como o de hoje, com todas as possibilidades de os meios de comunicação divulgarem tudo o que acontece no mundo, temos que trabalhar para evitar as invasões culturais massivas e devastadoras, em busca de um equilíbrio, da salvaguarda dos interesses culturais próprios, legítimos. Temos que defender a cultura da resistência, como fazem os franceses. Como surgiu a idéia do congresso e por que ele tem esse nome? - Quando Perez de Cuélla saiu das Nações Unidas, nos encarregou de fazer um trabalho amplo sobre a concepção cultural do desenvolvimento. E também sobre a diversidade cultural e a problemática que apresentava a cultura em países como o nosso. Fazíamo-nos a seguinte pergunta: é a cultura um componente essencial do desenvolvimento? Chegamos à conclusão de que a cultura é um componente essencial e fundamental do desenvolvimento. E esse congresso internacional, que já caminhamos para a terceira edição, nasceu para que possamos discutir profundamente esse ponto de vista também com outros povos, de outros continentes. Que entendimentos, ou que espécie de apoios, você já conseguiu manter no Brasil com relação ao congresso? - Vim até aqui em busca de contatos com personalidades da cultura, com intelectuais, artistas e autoridades, para que o Brasil possa enviar uma grande delegação cultural. Esse é o nosso interesses, são esses os entendimentos que pretendo manter aqui. Quantos representantes vocês esperam que o Brasil possa enviar para Havana, e quais os países já convidados para o encontro? - O Congresso é de caráter internacional. Portanto, estamos de portas abertas para o maior número possível de participantes estrangeiros. No ano passado, contamos com representantes de 47 países, de todos os continentes. Tivemos representantes da área cultural até da China e da África. Não há qualquer limitação para a participação de qualquer país. Esperamos que o Brasil envie o maior número possível de companheiros. Que aspectos da cultura estarão em discussão durante o congresso? - Todos os mundos da cultura serão abordados. O mundo da cultura é tão diverso e tem áreas que são, em si mesmas, todo um mundo. Preferimos, ao invés de organizar temas gerais, promover fóruns próprios e específicos de discussão. Por exemplo: o fórum número um será sobre as bienais de arte como práticas artísticas contemporâneas. Dentro deste fórum, vêm as temáticas específicas, como: As bienais em crise, As bienais como espaço de legitimação artística, Presença do curador nas bienais curador X artistas, e assim por diante. Que outros temas são tratados nos diversos fóruns? - Os seguintes, prosseguindo: 2 A leitura, o livro e a literatura no Terceiro Mundo; 3 Artes Cênicas e público, universos que confluem; 4 A indústria da música, o desenvolvimento da criação artística e a proteção do patrimônio musical; 5 O audiovisual, futuro sem limites; 6 Participação e desenvolvimento sociocultural; 7 Patrimônio cultural: centros históricos e patrimônio intangível; 8 As bibliotecas do Terceiro Mundo; 9 Formação para a arte e a cultura: referências conceituais, estratégias e conflitos; e 10 A cultura na era digital. Todas as manifestações artísticas serão contempladas? - Rigorosamente todas. A música, com seus problemas de comercialização. O audiovisual, como um fenômeno hoje muito sério dentro da cultura. A cultura comunitária, na qual o Brasil tem hoje um trabalho maravilhoso, desenvolvido, por exemplo, por intermédio do Sesc de São Paulo. Como fazer cultura na era digital? São questões que serão exaustivamente discutidas no encontro. Faremos um congresso com uma amplitude ilimitada, que possa interessar a artistas, a produtores, a organizadores culturais, a executivos, a dirigentes, a técnicos, a todos que tenham uma movimentação para participar do trabalho cultural. A cultura é um fenômeno universal, que tem que interessar a todo mundo. Já sabemos tudo do congresso, Rafael, e agora gostaríamos de saber de você. Qual a sua trajetória até chegar ao posto que hoje ocupas no governo cubano? - Nasci em Havana e minha vida esteve sempre ligada à Educação. Como todo jovem, comecei a vida profissional pelas Forças Armadas, onde cheguei a oficial. Depois, me incorporei à Educação, começando a lecionar em uma escola técnica industrial, com especialidade em mecânica. Gosto muito de ensinar. Me tornei diretor da escola e fui diretor por muitos anos. Depois fui diretor de ensino na província de Matanzas. Em seguida, diretor provincial em Havana, aí já um cargo muito maior. Mais tarde, diretor de ensino técnico de todo o país. Quantas províncias possui o seu país? - Temos 14 províncias municipais, todas com governos e secretarias próprias. Fiz um doutorado em Pedagogia e cheguei mais tarde a vice-ministro da Educação e participei de todo o processo de desenvolvimento da educação em Cuba, nas décadas de 70 e 80, anos da grande expansão da educação em meu país. Em 1991 fui designado vice-ministro-primeiro da educação. Em Cuba, os ministérios têm vários vice-ministros, mas um deles é o vice-ministro primeiro, que é o substituto do ministro, quando ele está impossibilitado por alguma razão. Também o vice-ministro-primeiro é que viaja para representar o ministro fora do país, essas coisas. Em 1997 fui designado para o Ministério da Cultura, onde estou. Por que você foi escolhido para a pasta da Cultura? - Fui chamado pelo ministro Abel Prieto, grande companheiro, escritor, intelectual, ex-presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba, uma personalidade da cultura e da criação artística de meu país. Fui para ajudá-lo, com meus vintes anos de experiência no Ministério da Educação, a organizar e difundir o Ministério da Cultura. Qual a função da cultura em seu país, Rafael? - A cultura tem uma missão muito ampla. Ela é a alma do homem sobre a terra. Compreende toda a criação artística, seja uma pintura ou uma apresentação, uma obra dramática ou literária, ou cinematográfica, em tudo está a verdadeira dimensão humana. Aí a gente compreende que a educação é o suporte principal da cultura. Sem uma educação sóbria, um bom alicerce, o homem sente-se limitado para lutar pelo desenvolvimento da cultura em seu sentido amplo, em uma dimensão de massa, não só no manifestação artística. Existem pessoas que não têm instrução elevada e são artistas maravilhosos, capazes de criar obras impressionantes. Isto porque para se obter uma cultura com uma dimensão verdadeiramente social, não de elite, o povo necessita de um suporte na base. A cultura é um veículo para a libertação? - Nosso ideólogo máximo, José Martí, paradigma maior entre pensamento e ação, disse: ser culto para ser livre! A cultura é a única forma possível de liberdade. Quando se é culto, se tem uma cultura geral, nada nem ninguém poderá manipulá-lo. |
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